Tom Burke: "O mundo está-se nas tintas para aquilo que cada um pensa”

2023
29-11-2023

Tom Burke, cofundador do think thank E3G Third Generation Environmentalism, alertou, na Mobi Summit, para a importância das políticas no combate às alterações climáticas.

As alterações climáticas não são uma questão de opinião e é preciso que as políticas conseguiam responder ao momento que o mundo atravessa. O recado foi deixado por Tom Burke, cofundador do think thank E3G - Third Generation Environmentalism, esta quarta-feira, durante a palestra “Ação Climática - Quão urgente é urgente?”, no Portugal Mobi Summit, na NOVA SBE, em Carcavelos.

O ambientalista considera que, muitas vezes, “as pessoas não percebem a verdadeira natureza do problema com que estamos a lidar”. “Tem a ver com a própria física do carbono na atmosfera, não tem a ver com aquilo que eu penso ou o governo pensa. É física. O mundo está-se nas tintas para aquilo que cada um pensa”, insiste, alertando que, “se não for feito nada, a situação é alarmante”.

Antigamente “havia o hábito de se estabelecerem metas, não se conseguiam alcançar, reformulam-se as metas e volta-se a tentar”. Mas “não importa apenas estar no local correto, tem de se estar no tempo correto”, refere Tom Burke, apontando a necessidade de se vencer a “resistência ideológica” e se “chegar a uma solução até meados do século que não envolva combustíveis fósseis”. É preciso acelerar a transição energética e “já temos a tecnologia para o fazer”, ou seja, “ a questão não é a tecnologia, é o tempo”.

Para Tom Burke, “nós não conseguimos resolver qualquer problema a nível ambiental se não conseguirmos utilizar os poderes dos Estados em toda a sua capacidade”, pois as “ pessoas não podem fazer tudo por si só. Temos um problema político, mais do que um problema tecnológico”.

Antes, o especialista havia apontado dados de relatórios ambientais que considerou “assustadores” e que mostram que, apesar das evidências científicas, nem sempre estamos a optar pelo melhor caminho. Um dos documentos, relacionado com a produção de combustíveis fósseis até 2050, dá nota de que as empresas estão a produzir muito acima do que devia. Outro, sobre as emissões de gases com efeito de estufa, revela que “temos de reduzir em 43% as emissões de carbono” para evitar um aumento drástico da temperatura, mas, na realidade, o que se “constata até 2030 é que as coisas vão mas é aumentar. Estamos a seguir a via exatamente oposta”.

Mas mesmo apesar do grande conhecimento sobre o ambiente, ainda há aspetos desconhecidos no que diz respeito às mudanças climáticas que o mundo enfrenta. As coisas estão a acontecer “muito mais rapidamente do que estávamos a pensar”, disse, apontando o caso de fogos florestais, inundações e outros eventos extremos cada vez mais frequentes. E estas alterações levantam desafios importantes, como a necessidade de “continuar a garantir a segurança alimentar e a da água”, avisa.

As mudanças, continua Tom Burke, criarão choques económicos e políticos. Para além dos impactos na indústria, também vão haver choques políticos, assegura. As "pessoas vão ficar saturadas com os políticos e fartas do facto de eles não fazerem nada e vão começar a exigir ações mais urgentes e drásticas por parte dos Governos”.

Para realmente haver “algum diálogo nesta matéria, temos de ter cuidado com o tipo de discurso e o potencial falhanço de determinadas políticas”, disse ainda. Se as políticas “não tiverem sucesso”, as temperaturas vão continuar a aumentar, podendo chegar aos 40 graus em zonas onde tais temperaturas nunca foram sentidas, por exemplo. Isto provocará “impacto a nível do turismo e atividades”, com reflexos no PIB dos países. “Se as politicas falharem, a situação ficará pior do que podemos imaginar”.

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