
Empresas de mobilidade urbana procuram alternativas após travagem brusca nos Estados Unidos

As duas grandes empresas dos EUA – a Uber e a Lyft – tiveram quebras de 60% a 70% em Los Angeles e São Francisco.
Quem abrir a aplicação da Uber ou da Lyft em Los Angeles verá vários ícones de carros disponíveis a poucos minutos, como se tudo estivesse como antes. No entanto, a aparência de normalidade é mesmo só isso, aparente. As duas principais empresas de boleias dos Estados Unidos registaram, em março, quebras de 60% a 70% nas cidades mais atingidas pelo novo coronavírus, de Los Angeles a São Francisco e Nova Iorque, levando um dos negócios de mobilidade alternativa mais populares dos últimos anos a uma travagem brusca. Uma das primeiras cidades a dar ordens de permanência em casa aos habitantes, Los Angeles mantém os autocarros e comboios em funcionamento, mas com restrições apenas para deslocações essenciais, como é o caso da ida ao supermercado, farmácia ou hospital.A mudança obrigou as empresas que têm dominado as novas tendências de mobilidade urbana a procurarem vias alternativas. Além da diminuição repentina do número de passageiros, muitos motoristas ficaram doentes ou deixaram de conduzir por receio de infeção. Também aqui houve tragédias: no final de março, o motorista da Uber Anil Subba morreu de covid-19 algumas semanas depois de ter sido infetado por um passageiro doente que transportou do aeroporto JFK, em Nova Iorque. O foco das aplicações de boleias na distribuição de bens nesta altura é uma das alternativas mais viáveis, enquanto o distanciamento social for necessário para achatar a curva da pandemia. As duas empresas suspenderam a oferta de boleias partilhadas com desconhecidos (Uber Pool e Lyft Line) e a Lyft fez um acordo com a Amazon para direcionar os seus motoristas para as milhares de vagas abertas pela retalhista online. A Lyft também montou um serviço temporário de entrega de medicamentos, testes e bens essenciais a pessoas em isolamento, bem como de refeições para crianças e idosos em situação de necessidade. Além disso, a empresa estabeleceu um acordo com agências da rede de cuidados de saúde Medicaid para facilitar o transporte de doentes com baixos rendimentos. "Sabemos que não há palavras que façam justiça à experiência individual de cada um nas últimas semanas", escreveu a Lyft no seu blogue na entrada dedicada à covid-19, "Todos na Lyft sentimos o peso da responsabilidade para com a comunidade, em particular neste momento." No caso da Uber, que nunca teve lucros trimestrais nos seus dez anos de operação e contava consegui-lo este ano, o choque da pandemia está a ser grande, mas o CEO Dara Khosrowshahi disse que a empresa tem liquidez suficiente para aguentar os meses de crise que se antecipam. De forma a compensar a queda no número de passageiros transportados, a empresa lançou a ferramenta Work Hub para que os motoristas acedam a trabalhos das suas outras plataformas, nomeadamente Uber Eats, Uber Works e Uber Freight, e de outras empresas, como a Domino's, Shipt e CareGuide, que andam à procura de mais trabalhadores para lidarem com o aumento da procura dos serviços de entrega. "A coisa mais importante que podemos fazer agora é apoiar os motoristas", escreveu o CEO na página de entrada da Work Hub. "Estão a fazer trabalho essencial para manter as nossas comunidades em movimento enquanto combatemos este vírus, mas com menos boleias precisam de mais formas de ganhar dinheiro", afirmou. "Com a Work Hub, esperamos que os motoristas possam encontrar mais oportunidades de trabalho, quer seja dentro dos negócios Uber ou em outras empresas."A cidade com trânsito mais congestionado do mundo há seis anos consecutivos, segundo o ranking INRIX, tem agora as autoestradas vazias.
O negócio afundou temporariamente, o que explica que a Bird, marca que estava em crescimento meteórico, tenha optado pela demissão em massa de pouco mais de 400 empregados através de uma mensagem pré-gravada no Zoom. A Lime, maior marca do segmento, suspendeu as operações numa dúzia de países, incluindo Portugal, e a Spin seguiu o exemplo. É difícil saber até que ponto estes modelos de mobilidade que implicam tocar em objetos partilhados com desconhecidos regressarão à normalidade quando a pandemia estiver controlada. Outros formatos de mobilidade pessoal poderão surgir. Ou ressurgir: em Nova Iorque, a região mais atingida pela covid-19 nos Estados Unidos, o tráfego de ciclistas em bicicletas pessoais subiu mais de 50% em março na zona este, de acordo com dados do departamento de transportes da cidade norte-americana.Num negócio paralelo de mobilidade urbana, o das trotinetes elétricas, é mais difícil encontrar alternativas. O momento é de afastamento social e a última coisa que os utilizadores querem é pegar numa trotinete que passou pelas mãos de dezenas de pessoas nas últimas horas.
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