A mobilidade elétrica está em marcha, mas ainda há entraves a ultrapassar

2021
27-05-2021

A reciclagem das baterias, a expansão da rede fora dos centros urbanos ou as tecnologias do hidrogénio são os principais desafios apontados pelos convidados da segunda sessão PMS para atingir a descarbonização.

Com as vendas dos veículos elétricos a atingirem recordes todos os anos, a descarbonização em marcha na indústria, o custo das baterias em queda ou a rede de carregamentos em expansão, poucas dúvidas restam de que o setor do automóvel está a caminho das emissões zero. Esse é um ponto assente para os convidados da segunda sessão do Portugal Mobi Summit que, esta manhã, decorreu a partir dos estúdios da TSF. Não significa isso que o trabalho está feito. Alargar a reutilização e reciclagem das baterias após o seu curto período de vida na mobilidade elétrica, desenvolver outras tecnologias como as fuel cells a hidrogénio, expandir a infraestrutura para regiões com baixa densidade populacional ou desburocratizar a concessão de espaço público e de novos postos carregamento são os desafios que Aira de Mello, consumer experience director da Volvo Cars Portugal, Pedro Vinagre, administrador para Mobilidade da EDP Comercial e José Mendes, diretor executivo da Fundação Mestre Casais, trouxeram ao debate centrado no caminho da indústria automóvel para a descarbonização. Boa parte deste percurso está bem encaminhado com o preço das baterias a cair cerca de 13% entre 2019 e 2020, assegura Pedro Vinagre. Sendo o elemento mais caro da indústria automóvel, a descida no seu custo de produção será decisiva para a "democratização" da mobilidade livre de emissões. Mas há que pensar também nas inúmeras aplicações onde elas podem ser úteis após esgotarem o seu tempo de vida nos veículos elétricos: "Isso é hoje uma prioridade para todos os agentes do mercado e um dos aspetos mais críticos neste processo", adverte o responsável da EDP Comercial, recordando o "enorme potencial das baterias" em reutilizações que vão dos painéis solares, até à reciclagem de alguns dos seus componentes mais valiosos para outros fins.

Dar mais gás ao hidrogénio

Há ainda muito investimento a ter de ser feito neste setor em particular, muito embora a indústria da reciclagem esteja finalmente a ganhar fôlego, ressalva por outro lado José Mendes, colocando também a ênfase em outras tecnologias que precisam ganhar terreno, como é o caso das fuel cells (ou célula de combustível) a hidrogénio: "Trata-se de uma tecnologia ainda pouco explorada e que pode ajudar a reduzir o tamanho das baterias, tanto no seu volume como na intensidade da sua utilização." O hidrogénio surge mesmo como a melhor alternativa para os casos em que a bateria não tem respostas, salienta o diretor executivo da Fundação Mestre Casais, relembrando as limitações que elas apresentam para os pesados de mercadorias e de passageiros. "Quando olhamos para o custo total de operação, verificamos que o hidrogénio é uma vantagem", defende o também ex-secretário de Estado adjunto da Mobilidade. A Fundação Mestre Casais está precisamente a concluir um estudo que servirá de recomendação ao governo e às empresas para renovar as frotas de transporte público urbano e de mercadorias: "Temos de jogar em diferentes tecnologias e o Estado terá também de fazer algum esforço para dar tração a estas tendências que começam agora a surgir." Num processo em rápida transformação como é o da descarbonização dos transportes haverá sempre margem para melhorar, seja através de mais investimento nas regiões afastadas dos centros urbanos ou agilizando os mecanismos legais para expandir a rede de carregamentos. São algumas arestas ainda por aperfeiçoar, mas, não menos importante, é a necessidade do setor automóvel e do Estado em ser mais bem-sucedido nos programas de consciencialização. "Embora os consumidores estejam cada vez mais informados, o que vemos através dos nossos estudos é que ainda são muito mais motivados pelos descontos e incentivos fiscais do que propriamente pela preocupação ambiental", explica Aira de Mello, defendendo que a mudança de paradigma não pode ser atingida unicamente pelo interesse económico. Até porque – acrescenta José Mendes – ao se ter em conta o "custo total de posse de veículo" – os automóveis elétricos já são hoje muito mais vantajosos nas deslocações urbanas. "A perceção sobre essa mais-valia pode contribuir muito para acelerar a transição energética", remata.

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