“É errado pôr o foco nos carros elétricos”

Conferências
23-10-2025

O aumento desmedido de carros enormes, o uso quase residual da bicicleta, o perigo dos veículos autónomos e os grandes erros que estamos a cometer em matéria de mobilidade verde. Foram estes os grandes temas da conferência de David Zipper, autor e sénior fellow da MIT Mobility Initiative, que abriu a última tarde do Portugal Mobi Summit.

Precisa mesmo de um carro/SUV assim tão grande? Quantas das suas últimas dez viagens podia ter sido feita em duas rodas? O que vai acontecer se todos usarmos veículos autónomos? As três “provocações” deram o mote para a conversa.

“Temos que olhar para os SUV e para as pick up como olhamos para o tabaco: não é só um problema de quem fuma. Também é um problema de quem está ao lado. A minha decisão de fumar afeta todos os outros. Nos carros grandes também”, afirmou o investigador de políticas que ligam transportes, tecnologia e sociedade.

Carros muito maiores do que o condutor realmente precisa trazem mais perigo para os peões - com as crianças à cabeça – e, nos EUA (onde as pick up têm “uma enorme procura”) o aumento das mortes por atropelamento “é uma realidade”.

Dos SUV para a bicicleta, Zipper desconstruiu mitos: nos EUA como em Portugal, 1% das deslocações são feitas de bicicleta. Os estudos dizem que quem pedala regularmente é “mais feliz e mais saudável” e que, em muitos casos, a chegada ao destino é mais rápida. Mas, então, porque é que a bicicleta é tão pouco utilizada em deslocações curtas? As queixas vão da falta de conforto ao calor e ao frio até ao transporte de carga ou à cidade demasiado sinuosa. David diz que são tudo “desculpas”: na Finlândia, 12% das deslocações são feitas de bicicleta e o frio é muito, há “soluções ótimas para cargas” e a bicicleta elétrica resolve grande parte das situações de pessoas com problemas de mobilidade e ajuda muito nas ruas mais íngremes.

O único problema “real”, frisa, é de facto a segurança. Mais ciclovias e mais parques de estacionamento seguros para bicicletas ajudavam a levar as deslocações de bicicleta Lisboa ou os EUA para números próximos dos 40% dos Países Baixos.

E que dizer dos veículos autónomos? Os robotáxis já existem em São Francisco ou Las Vegas e para quem o usa é “mais cómodo e garante maior privacidade durante a viagem”. Mas o sistema tem vindo a levantar problemas de segurança – há relatos de carros a virar em ruas cortadas ao trânsito, parados indevidamente ou a usar as vias exclusivas para autocarros - e, a médio prazo, pode trazer ainda mais carros para as cidades. Em Estocolmo, por exemplo, estão já a ser tomadas medidas com a aplicação da taxa de congestionamento (uma espécie de portagens para quem entra na cidade, durante o dia, nos dias úteis).

“Porque é que os carros autónomos são mais seguros? Porque não excedem a velocidade e não bebem. Podemos fazer isso hoje mesmo se quisermos nos carros ‘tradicionais’. Temos tecnologia, mas não queremos”, sublinhou, acrescentando: “Não há cenário onde 200 km/hora seja uma velocidade apropriada, então porque é que continuamos a vender carros capazes de atingir essa velocidade?”. Inevitavelmente, a resposta está na vontade da indústria automóvel.

A evolução tecnológica tem sido enorme e a verdade é que os carros autónomos já estão aí, mas, salienta Zipper, antes que entrem nas cidades aos milhares, há que apostar na bicicleta e no transporte público e parar de “endeusar o carro elétrico”.

 “É errado por o foco nos carros elétricos. As pessoas acham que estão a beneficiar o ambiente por cada quilómetro que fazem no seu Tesla. Não é verdade! É menos mau do que um carro a combustível, mas a pegada é a mesma”, continuou a explicar.

É verdade que há bons exemplos – como a prefeita de Boston, Michelle Wu, que levou a comunidade a segui-la ao ir para o trabalho de bicicleta -, mas, no que toca à mobilidade verde, diz David Zipper, é preciso que os decisores públicos façam “mais, muito mais”.

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