
Mobi Entrevista - Brisa assumiu custos do colapso da A1 "para não penalizar os contribuintes"
Na Mobi Entrevista do PMS2026, Manuel Melo Ramos, administrador executivo do Grupo Brisa e CEO da Brisa Concessão Rodoviária, fala das consequências dos temporais de fevereiro, do futuro das concessões, de segurança rodoviária e de mobilidade elétrica.
Fevereiro foi um mês desafiante para o país e para a Brisa. Isto porque as tempestades puseram à prova as autoestradas portuguesas. A rotura de um dique, precisamente por baixo de um viaduto da A1, causou o colapso do pavimento numa extensão de cerca de um quilómetro, num evento que Manuel Melo Ramos, administrador executivo do Grupo Brisa, classifica como "completamente excecional" e "externo à concessão". Mas a resposta foi imediata: 16 dias, mais de 15 mil horas de trabalho, 150 equipamentos, 12 mil toneladas de material pétreo e 600 toneladas de pavimento betuminoso depois, a circulação estava reposta.
Mas o mais surpreendente não foi a rapidez da obra. Foi o facto de, apesar da responsabilidade pelo colapso não ser da Brisa - causado pelo rebentamento de infraestrutura externa à concessão -, a empresa e os seus acionistas terem optado por não pedir compensação ao Estado. "Não quisemos, naquele contexto de calamidade, penalizar os contribuintes", explica Melo Ramos, descrevendo a decisão como um gesto de responsabilidade social "num momento crítico".
Clima, infraestrutura e a conta que ninguém quer pagar
O episódio da A1 abriu caminho para uma discussão mais ampla: as autoestradas portuguesas foram desenhadas para um quadro climático que já não existe. Fogos florestais, chuvas intensas e ventos ciclónicos obrigaram a Brisa a reforçar sistemas de drenagem, taludes e pórticos - investimentos que, segundo Melo Ramos, já fazem parte do business as usual da empresa, com uma média de 60 milhões de euros anuais em manutenção e conservação.
A questão prende-se com quem deve pagar a adaptação a cenários ainda mais extremos? Manuel Melo Ramos foi muito claro na resposta: em regra, o risco de adaptação climática fica do lado das concessionárias. Segundo o administrador, os contratos de concessão prevêem, no entanto, a figura da força maior - os chamados Acts of God - cujo risco fica tipicamente do lado do Estado. "É uma alocação de riscos bastante equilibrada", considerou.
O futuro das concessões
A concessão da Brisa termina em 2035, sendo que há uma negociação com o Estado que está em curso sobre os termos da atual concessão. Na mesa, e segundo Manuel Melo Ramos, estão temas de reequilíbrio contratual, mas também a possibilidade de incluir no contrato atual obras não previstas inicialmente. Finda a data, a expectativa da Brisa é a de que seja lançado um concurso público internacional. Onde a empresa, claro está, será um dos candidatos.
O administrador da Brisa defende o modelo de concessão sem reservas: Portugal tem uma das melhores redes de autoestradas da Europa, classificada em quarto lugar mundial em termos de qualidade. "O modelo utilizador-pagador garante que quem utiliza as autoestradas paga por elas, tornando o sistema justo e transparente", disse. No que concerne às críticas de que o modelo gera rendas excessivas, a resposta foi direta: trata-se de um negócio de capital intensivo, com milhares de milhões investidos na construção, e as rentabilidades operacionais mais elevadas são a contrapartida natural desse investimento inicial.
Já em relação à eliminação das portagens das SCUT, Manuel Melo Ramos aponta que “é muito importante que decisões políticas conjunturais não ponham em causa este modelo", que depende de investidores de longo prazo como fundos de pensões e fundos de infraestruturas.
Autoestradas inteligentes
Manuel Melo Ramos vê três grandes transformações a decorrerem nas próximas décadas: desde logo mais veículos elétricos, mais veículos conectados e, sobretudo, a chegada de veículos completamente autónomos às autoestradas. Sendo que a infraestrutura terá de acompanhar essa evolução, com investimento em comunicação veículo-infraestrutura, inteligência artificial e sensores em tempo real.
Por outro lado, as áreas de serviço surgem como um nó crítico desta transição energética. Com apenas 5% da frota nacional atualmente eletrificada, os picos de procura já se fazem sentir, sobretudo no verão. A Brisa garante que terá, neste verão, uma oferta de carregamento "muito compatível com as necessidades" nos seus principais eixos. Mas, alerta o administrador da Brisa, os condutores terão de adaptar hábitos: "conduzir um veículo elétrico não é exatamente a mesma coisa que conduzir um veículo convencional”.
Alexandra Costa









