
"O Tejo não separa, une": Rui Rei quer a Transtejo no centro da mobilidade metropolitana
O presidente da Transtejo e da Soflusa fala de frotas elétricas, novas rotas, da futura operação turística e do papel estruturante do rio na mobilidade da Grande Lisboa. Em seis meses de gestão, já investiu mais de cinco milhões de euros em manutenção e quer a operação completamente estabilizada até ao verão.
Quando Rui Rei tomou posse como presidente da Transtejo e da Soflusa, em meados de outubro de 2025, a empresa navegava em águas turbulentas. Dos nove navios elétricos disponíveis, apenas três estavam operacionais. As supressões de carreiras acumulavam-se e o descontentamento dos passageiros era público. Seis meses depois, sentado numa conversa gravada para o Portugal Mobi Summit, o gestor que passou por Cascais e por Oeiras antes de chegar ao Tejo mostra-se cauteloso, mas confiante: "O problema genérico das supressões está resolvido. Poderá vir a estar completamente debelado em junho ou julho", afirma.
O diagnóstico que fez à chegada foi pragmático. Não quis demorar-se nas causas, preferiu agir. No dia 1 de novembro - passados apenas 17 dias de mandato - a Transtejo passou a cumprir integralmente o contrato de serviço público e o serviço para Cacilhas tornou-se 100% elétrico. Para isso, foram investidos mais de cinco milhões de euros em reparação e manutenção em apenas seis meses. "Isso demonstra a necessidade que a empresa tinha", admite, sem rodeios.
A maior operação de descarbonização do país
A Transtejo opera hoje a maior frota de navios elétricos do mundo com estas características, segundo Rui Rei. Trinta navios no total, dez dos quais elétricos - e, em breve, todos a operar em simultâneo. "A maior operação de descarbonização feita em Portugal é no Tejo", afirma, colocando a aposta nas embarcações elétricas num patamar acima do metro e da CP. "Nós hoje temos uma operação brutal em matéria elétrica”, acrescenta.
O crescimento é expressivo: em 2025, a frota elétrica transportou 85 mil pessoas; em 2026, já vai perto de um milhão. No Seixal, a procura cresce mais de 20%. "É um sinal de serviço", diz, acrescentando que “estamos a cumprir a nossa missão e as pessoas estão a aderir".
Os desafios técnicos existem e Rui Rei não os esconde. O principal chama-se Montijo - a rota mais longa, que ainda requer a construção de um novo pontão e instalação de infraestrutura de carregamento. O financiamento, garante, está assegurado pelo Governo. Quanto às críticas do PCP à tecnologia elétrica - acusada de não estar preparada para as correntes e ventos do Tejo -, o presidente da Transtejo responde com factos: "Durante a tempestade, os navios elétricos funcionaram, sempre." Reconhece, porém, as dificuldades de acostagem em condições meteorológicas adversas, experimentadas inclusive na primeira pessoa. "São dificuldades da natureza. Não quero dizer que o navio seja pior ou melhor que os outros - é diferente."
Novas rotas: Algés-Trafaria, Parque das Nações e um anel por fechar
Se a estabilização da operação atual é a prioridade imediata, o horizonte estratégico da Transtejo é mais ambicioso. A empresa estuda ativamente novas ligações ao longo de toda a margem sul, com destaque para duas rotas que concentram grande expectativa: Algés-Trafaria e Parque das Nações-Montijo.
A ligação Algés-Trafaria, provavelmente a mais aguardada, tem o estudo de procura concluído. Os números revelados por Rui Rei são animadores: mais de 40 mil pessoas por dia com potencial para fazer essa travessia, tirando partido da FCT - Nova, das ligações de trabalho na margem norte, sobretudo em Oeiras, e da ligação com o MetroBus. "No fundo é completar um anel", resume Rui Rei. O próximo passo é o estudo de navegabilidade e a identificação do melhor local para o pontão - a Doca de Pedrouços surge como forte hipótese. A articulação com as autarquias envolvidas será determinante.
Já a ligação ao Parque das Nações - abandonada há quase 30 anos, desde o fim da Expo 98 - requer a cedência do terminal pela Câmara Municipal de Lisboa, dragagens (não complexas, segundo o gestor) e um pontão novo. "É algo que se pode tornar uma realidade", garante, mas exige conjugar vontades. A pressão demográfica crescente nos concelhos ribeirinhos da margem sul - Seixal, Montijo, Alcochete - reforça o argumento. Cada navio de 540 lugares equivale a dez autocarros. "Os presidentes de câmara da margem sul querem todos que se avalie esta ligação", aponta o executivo.
Turismo, terminais e diversificação de receita
A visão de Rui Rei para a Transtejo vai além do transporte nos movimentos pendulares entre margens. A empresa quer regressar à operação turística - entregue há anos à Carristur - aproveitando os milhões de visitantes que Lisboa recebe anualmente. "Não faz sentido que uma empresa como a Transtejo não tire valor dessa atividade como forma de financiar a operação", argumenta, referindo que assim, a empresa fica menos dependente do investimento público (leia-se, verbas do Orçamento do Estado). A promessa: complementar, não concorrer com o sector privado.
Nesse quadro, os históricos Cacilheiros - símbolo da empresa e parte do património cultural de Lisboa - não serão abatidos. Terão outras funções, nomeadamente turísticas. "A Transtejo tem que voltar à sua operação turística e essa será uma das suas vocações", confirma. Os terminais, atualmente geradores de despesa, deverão também transformar-se em fontes de receita, explorando o potencial comercial dessas áreas de passagem.
Quanto à frota do futuro, Rui Rei antecipa embarcações mais pequenas e ágeis para o "estreito" entre Cacilhas e a foz, onde a rapidez e a flexibilidade importam mais do que a capacidade. O executivo lembra, porém, que o Tejo não é um lago: "entre a Ponte Vasco da Gama e a foz, o Tejo comporta-se quase como mar. É preciso destreza para a operação", reconhecendo, desta forma, a presteza dos mestres, maquinistas e tripulantes.
A terceira travessia e a adaptação ao território
O anúncio do Parque Cidades do Tejo e a perspetiva da terceira travessia rodoferroviária colocam novos desafios à Transtejo. A ligação fluvial ao Barreiro - atualmente a mais movimentada, com 11 milhões de passageiros por ano - sofrerá impacto quando a nova ponte entrar em funcionamento. Rui Rei aceita a realidade: "O que não faz sentido é que a Transtejo faça a mesma operação que fazia há 30 anos, sobretudo fazer menos serviço que há 30 anos”. A adaptação é inevitável - e deve ser planeada com antecedência.
Para isso, a empresa está a contratar recursos humanos qualificados - "mais do que uma mão cheia" de jovens recrutados nestes seis meses -, a reforçar os meios de manutenção e a estudar o novo terminal de Cacilhas, numa perspetiva de interface integrado com o Metro Sul do Tejo. "A Transtejo tem que se adaptar e ter recursos internos que pensem essa adaptação".
Questionado sobre o que espera da empresa em cinco anos e qual a experiência que quer que os passageiros descrevam, a resposta foi imediata. "Que seja uma travessia agradável e que quando precisarem de uma embarcação, ela esteja lá." Simples, direto - como o rio que, nas suas palavras, sempre uniu e nunca separou.
Alexandra Costa








