Incentivos à compra de eléctricos, para particulares, “são iniciativas soltas, sem estratégia”
Sérgio Ribeiro, presidente da ACAP e CEO da Global Automotive Distribution do Grupo Salvador Caetano, critica a falta de estratégia nos apoios à electrificação, sobretudo para clientes particulares, e fala em “falta de coordenação entre ministérios”.
Convidado da Mobi Entrevista, do Portugal Mobi Summit, Sérgio Ribeiro traça o retracto de um mercado automóvel português em crescimento, mas refém de uma fiscalidade desactualizada. Defende um programa de abate para 40 mil viaturas antigas e alerta para o risco do país se tornar destino de carros usados que a Europa quer descarbonizar.
O mercado automóvel português fechou o primeiro semestre de 2026 com quase 158 mil veículos novos matriculados, mais 10,4% do que no mesmo período do ano passado e um crescimento de 15% apenas em Junho. Para Sérgio Ribeiro, presidente da ACAP – Associação Automóvel de Portugal, esta não é uma bolha, mas também ainda não é o retracto de um mercado plenamente saudável. "É uma recuperação gradual do ritmo de vendas", explica, resultado da confiança crescente de famílias e empresas depois da pandemia, mas sustentada sobretudo por dois factores muito específicos: o ciclo de substituição de viaturas não vendidas nos anos de crise e o forte crescimento do negócio de rent-a-car, puxado pelo turismo, que já cresce 27,5% e pode representar entre 30% e 35% de todo o volume de ligeiros de passageiros vendidos em Portugal.
Ainda assim, a ACAP não antecipa que 2026 traga de volta os cerca de 300 mil veículos que a associação considera um mercado "natural" ou "saudável", em parte porque o efeito do rent-a-car concentra-se sobretudo no primeiro semestre. “Será, objectivamente, um ano de crescimento e de reposição daquilo que não foi vendido no passado", resume o dirigente.
Electrificação a bom ritmo
Os dados mais expressivos do semestre dizem respeito à crescente electrificação do mercado. As vendas de eléctricos, híbridos plug-in e híbridos convencionais cresceram quase 32% e já representam 68% do total de vendas de ligeiros - 74,2% quando se olha apenas para os ligeiros de passageiros. Os híbridos convencionais lideram com 28,4%, seguidos dos eléctricos (25%, contra 20% há um ano) e dos plug-in (14,5%).
O diesel, outrora dominante, caiu para uns residuais 3,7%. Para Sérgio Ribeiro, a tendência "é sustentável" e vai continuar a evoluir, impulsionada pelas metas de descarbonização da Comissão Europeia e, sobretudo, pelo mercado corporativo, devido aos incentivos fiscais em vigor para as empresas, que têm um quadro fiscal bastante mais favorável do que o dos particulares.
É precisamente aí que o presidente da ACAP identifica o principal travão à electrificação em Portugal: a rede de carregamento. "Nós temos metade da média europeia de pontos de carregamento por mil habitantes. E isto são factos, não são opiniões", sublinha, defendendo uma aposta rápida e substancial na cobertura de infra-estrutura. A isso soma-se a quase ausência de incentivos fiscais para particulares - ao contrário do que acontece com as frotas empresariais - e a falta de um programa estruturado de abate de viaturas antigas, à semelhança do que existe em Espanha.
O tema dos apoios públicos gerou um dos momentos mais críticos da conversa. Os incentivos do Fundo Ambiental para a compra de eléctricos, no valor de 10 milhões de euros, esgotaram-se no próprio dia em que abriram, com a categoria de ligeiros de passageiros para particulares a ficar sem verba em menos de duas horas. "Isto não são, do nosso ponto de vista, políticas públicas. São iniciativas soltas, sem uma estratégia por trás", critica Sérgio Ribeiro, apontando a falta de coordenação entre os ministérios da Economia, das Finanças e do Ambiente. A ACAP defende três medidas concretas: um programa de abate de viaturas com mais de dez anos, com um apoio de 5 mil euros por veículo eléctrico novo comprado, alargado até 40 mil veículos; uma dedução de 15% do valor do carro em sede de IRS para particulares; e o alívio das tributações autónomas para empresas, já prometido em sede de concertação social há dois anos, mas ainda por cumprir.
Questionado sobre a medida que mudaria já amanhã na fiscalidade automóvel, o presidente da ACAP não hesita: "A prioridade era a inclusão do programa de abate para 40 mil viaturas para particulares". A justificação está nos números do parque automóvel português: 14,1 anos de idade média, muito acima da média europeia, e 1,8 milhões de veículos com mais de 20 anos em circulação, sendo que se trata de um parque que, no ano 2000, tinha uma média de sete anos.
"O caixote do lixo da Europa"
Um dos pontos mais duros da entrevista foi reservado ao mercado de usados importados, que Sérgio Ribeiro já classificou publicamente como fazendo de Portugal "o caixote do lixo da Europa". Os números sustentam a expressão: este segmento já representa mais de 50% das vendas de viaturas novas, cresceu 14% este ano e 43% face aos níveis pré-pandemia. Setenta por cento destes veículos têm mais de cinco anos e 27% têm mais de 20, com uma idade média de 8,5 anos. Ao contrário da tendência do mercado de veículos novos, 27% destas importações são a gasóleo e 28% a gasolina. "O mercado português está a ser uma forma de resolver o problema da descarbonização de outros países", afirma, associando o fenómeno a problemas de segurança rodoviária e de emissões e à incoerência da legislação fiscal nacional.
Para corrigir esta distorção, a ACAP vai apresentar, em breve, em conjunto com a Ernst & Young, uma proposta de revisão transversal da fiscalidade automóvel, que passa por eliminar critérios desactualizados como a cilindrada no cálculo dos impostos e aproximar o regime português das práticas europeias. O exemplo dado é a Espanha, onde a tributação mais baixa torna os carros novos mais acessíveis. Já quanto à simplificação do IUC, com data única de pagamento em Fevereiro, Sérgio Ribeiro reconhece vantagens para os particulares, mas alerta que agrava a tesouraria das empresas com viaturas em stock, defendendo um regime de suspensão do imposto enquanto os veículos não são vendidos.
Sobre a concorrência das marcas chinesas, que hoje já representam cerca de 9% do mercado português, em linha com a média europeia, o presidente da ACAP mostra-se despreocupado, comparando o fenómeno às entradas anteriores de marcas japonesas e coreanas. "Isto no fundo são automóveis, e são automóveis que alargam a oferta disponível", diz, recusando qualquer juízo sobre a origem das marcas.
Salvador Caetano: mais de metade do negócio já é internacional
Na segunda parte da conversa, Sérgio Ribeiro troca de chapéu para falar como CEO da Global Automotive Distribution, a área do Grupo Salvador Caetano responsável pela expansão internacional, sendo que é também responsável por essa área do grupo no mercado nacional. O grupo está hoje presente em 48 países, entre a Europa, África e América Latina, depois de uma aceleração "enorme" nos últimos seis a sete anos: entrada nos mercados nórdicos (Suécia, Dinamarca, Noruega), na Europa de Leste (Roménia, Hungria, Croácia, Eslovénia) e uma grande aquisição na Irlanda. A lógica, explica o CEO, é reduzir a exposição do grupo às crises cíclicas de Portugal e Espanha, mercados a que esteve historicamente muito ligado. Mais de metade do volume total do grupo já vem do exterior, uma fatia que Sérgio Ribeiro garante que vai continuar a crescer, "porque estamos a entrar em mercados muitíssimo maiores que o mercado português".
Em África, onde o grupo está presente desde 1990 em 24 países, destaca-se a recente parceria com a chinesa GAC Motor para distribuição na África do Sul, complementando a operação com a Toyota. Na América Latina, a aposta arrancou na Colômbia - com retalho, distribuição, leasing e usados - e estendeu-se recentemente à Venezuela, "um mercado ainda muito fechado, mas em crescimento".
Sérgio Ribeiro refere ainda que o grupo diversificou o negócio com a aquisição da maioria do capital do Grupo Multimoto (Kawasaki, Benelli, Bimota), reforçando a presença nas duas rodas, onde já operava como concessionário BMW. E soma marcas chinesas ao portefólio - BYD, Xpeng, Geely, ZEEKR, Dongfeng, Voyager, M Hero - numa lógica de diversificação de risco que Sérgio Ribeiro compara à aposta passada em marcas japonesas, coreanas e americanas: "O grupo não faz política".
Quanto ao hidrogénio, tecnologia em que o grupo também tem investido, o CEO vê potencial claro no transporte pesado de mercadorias e de passageiros, mas considera que nos ligeiros "está ainda por provar". O maior obstáculo, alerta, é o mesmo que trava a electrificação: a falta de políticas públicas consistentes e de investimento em infra-estrutura. "Anunciam-se paixões, mas depois, quando vamos aos concretos, o sumo é muito pouco."
Para 2026, as prioridades dos dois chapéus que Sérgio Ribeiro veste convergem no mesmo ponto: por um lado, a luta pela transformação da fiscalidade automóvel à frente da ACAP; por outro, a consolidação do crescimento internacional e a entrada em novos mercados e negócios à frente da Global Automotive Distribution do Grupo Salvador Caetano.
Alexandra Costa




